Analisando a história da personagem Nahida, de Genshin Impact


“A sabedoria pode iluminar aqueles que estão no escuro, mas também pode levar à completa arrogância.” (Perfil do personagem Cyno, História 1)


Nahida, ou a “arcontinha do povo”, a Lord Menor Kusanali, ou, ainda, a Deusa da Sabedoria. No mundo de Genshin Impact, Arcontes são seres que governam cada uma das sete nações do continente de Teyvat, e que tem o chamado controle absoluto de um determinado elemento (que também são sete), além de representarem de um ideal. São seres bem poderosos.
Mas… O que podemos refletir a partir da história desta personagem? Eu levanto alguns pontos aqui:
PRIMEIRO: como pessoas que ocupam o cargo de Sábios, eles deveriam saber que ninguém nasce sabendo sobre tudo. Nem mesmo os deuses daquele mundo. A Sabedoria vem com o tempo e com estímulo à busca pelo conhecimento e por vivências, e, se eles tivessem dado a ela tudo isso, Nahida se desenvolveria e alcançaria o mesmo patamar da arconte anterior, a Lorde Maior Rukkhadevatta. Inclusive, mesmo sozinha e enclausurada, ela havia feito muito progresso estudando pelo Akasha. Eles deram mais valor à EXPECTATIVA do que é ser um Arconte do que em trabalhar com a realidade que tinham em mãos.
SEGUNDO: a prisão da Nahida não foi apenas física, pois os Sábios, geração a geração, fizeram com que toda a população de Sumeru continuasse a venerar uma deusa morta e tratasse sua governante como uma pessoa reclusa e que não se envolvia com os assuntos de seu povo, como se ela fosse uma nota de rodapé na história. Como o poder de um Arconte cresce (ou não) de acordo com a fé que seu povo deposita nele, a Lorde Menor Kusanali não só era FRACA FÍSICA E MAGICAMENTE, como ainda tinha uma aparência infantil, mesmo depois de 500 anos de despertada.
TERCEIRO: Os Sábios passaram geração após geração cultuando uma deusa morta, forçando essa fé na população e alimentando um rancor pela atual governante, visto que espalharam a informação de que Lord Menor Kusanali preferia se voltar apenas aos seus deveres com a Irminsul, e não com os “assuntos mundanos”. Assim, Nahida não tinha como formar aliados ou amigos que pudessem pensar numa forma de tirá-la desta situação, então seu cárcere também era POLÍTICO.
QUARTO: LUTO. O nascimento da Nahida significava um fato que os Sábios não queriam aceitar: sua amada e louvada Arconte (Rukkhadevatta) estava morta. Não havia mais retorno. Foi ela que os deu o Akasha, que resolveu a crise no deserto, que criou a Floresta Tropical em que eles viviam, fundou a Academia e tudo o que eles conheciam. Ela era o símbolo da Sabedoria. E eles a perderam para sempre. Foi isso o que a Kusanali representou, ainda que de forma inconsciente. Eles não encararam essa situação como um novo samsara, e que eles seriam os responsáveis pela transição do antigo para o novo ciclo. Mas como o fim. E o luto, se mal trabalhado, pode levar as pessoas a coisas horríveis, inclusive transmitindo essa dor de geração a geração.
QUINTO: VIVER À SOMBRA DE ALGUÉM E PROBLEMAS DE AUTO-ESTIMA. Claro que, de tanto ouvir sobre os feitos de Rukkhadevatta, Nahida acreditava que não era digna do título de Arconte. Ela também tinha fé em sua antecessora, também sentia sua falta, também acreditava que era ela quem traria a resposta para o problema da Irminsul. Embora ela tenha sido condicionada a pensar assim, até que esta última parte ela não estava errada, só não era a resposta que ela esperava… Ninguém imaginaria a solução seria “que o mundo esqueça-me completamente”, na verdade… Nem ela esperava ficar sozinha lidando com Sumeru depois disso, afinal ela mesma dizia: “Afinal de contas, eu sou apenas a Lua / O verdadeiro Sol já se foi há muito tempo”.
SEXTO: ESQUECER, ÀS VEZES, É BOM. Como seguir em frente sabendo tudo o que a Nahida descobriu, como se perdoar sabendo que você apagou permanentemente alguém tão importante como a Lord Maior Rukkhadevatta da existência? Simples: não se perdoa, mesmo tendo consciência de que foi necessário e que não havia outra maneira. No entanto, ao mexer na Irminsul (árvore que guarda as memórias e as informações de Teyvat e de quem nasceu lá), o que foi alterado também é adulterado na mente das pessoas e objetos (já que até objetos carregam história). Por isso, todos os nativos daquele mundo tiveram suas lembranças da Arconte anterior apagadas da história, inclusive a própria Nahida. Em outras palavras, após o “apagamento”, a árvore sagrada rearrumou a história para que os acontecimentos se encaixem em quem permanece registrado nela, tornando, inclusive, os feitos da Academia ainda piores: na “nova” versão dos fatos, foi a Nahida quem exauriu seu poder ao combater o Conhecimento Proibido, a ponto de regredir de adulto para uma criança e, após isso, foi presa no Palácio de Surasthana pelos Sábios por séculos. Com isso, Nahida meio que acaba tendo a força para seguir em frente e cumprir o seu dever, pois ninguém sente culpa sobre aquilo que, no caso, nunca existiu.
[Aqui, vale um adendo: no jogo, para um ser poderoso acessar poder ao extremo, este paga com a “memória”: quanto mais poder se usa dessa forma, mais memória se perde, a ponto de seu estado físico regredir (adulto -> criança -> ?!?).]
OITAVO: O QUE É A SABEDORIA, se não um apanhado de tudo o que vimos, vivemos, presenciamos, fazemos, lemos, enxergamos e aprendemos? É até ironia do destino perceber que pessoas que receberam o título de “Sábios” (com “s” maiúsculo mesmo), cada um em sua área de conhecimento, ao longo dos séculos e das gerações, mas não entenderam o real significado de Sabedoria. Para eles, Rukkhadevatta era esse símbolo, e mais ninguém o merecia. Mas Nahida era muito sábia também, pelo menos dentro do que o Akasha podia fornecer de informações e o seu poder dos sonhos conseguia processar. E ela evoluiu muito.
NONO: Nahida, mesmo tendo passado por tudo o que passou, compreende que a Sabedoria não é algo inerte e que deva ser confinada a uns poucos, mas que precisa ser COMPARTILHADA E ESTIMULADA (desde que não passe dos limites) com todos - e é o que ela faz de fato. Ela poderia usar o seu poder e conhecimento para se vingar de todos? Claro, mas escolheu não fazê-lo. Ela seguiu por um caminho ético, correto e sábio (mais até do que quem recebeu o título), quando poderia ter optado pela via do ódio e ter se vingado da nação inteira, criando o caos assim que fosse libertada, afinal, ela também tinha o poder dos sonhos. Mas não o fez, e escolheu proteger e cuidar do seu povo, quebrando, dessa forma, com o ciclo de rancor entre a floresta e o deserto, por exemplo.
No nosso dia a dia, somos capazes de errar, inclusive quando pensamos estar acertando. A Academia, apesar de se julgar agir em nome da Sabedoria, ou seja, da racionalidade, deixou-se levar pelo emocional do luto sem tratá-lo da maneira correta. E, não apenas sua governante, mas toda a nação pagou por isso. Inclusive eles mesmos, eles não eram felizes, viviam com medo, rancor... Não tinham paz.
Quando temos emoções reprimidas, não significa que elas sumiram. Elas só estão escondidas até que algum gatilho as force a voltar à superfície. Só que não vem como uma onda, mas como um tsunami. E corremos o risco de fazer algo bem sério. Essas pessoas precisam ser responsabilizadas, sim, pelas coisas ruins que fizeram, mas elas também precisam de ajuda para lidar com esses sentimentos não tratados, bem como com o impacto das consequências das ações. Além disso, Nahida mostrou que é digna, sim, do título de deusa da Sabedoria ao lidar com toda a situação de maneira madura, e por conseguir cuidar de seu povo mesmo presa. Ao prometer compartilhar informações importantes ao Viajante (que o mesmo tem procurado) e, de fato, fazê-lo, ela também demonstra que acredita que o Conhecimento é algo que se compartilha, deixar parado só faz com que ele desapareça.

Esses (e por ela ser uma fofa!) são os motivos que fazem com que ela seja uma das minhas personagens favoritas de Genshin Impact.

Obrigada pela companhia nesta viagem sobre a história de um personagem fictício! Sei que nem todo mundo acompanha o universo dos jogos, e por isso mesmo sou grata ainda mais pelo apoio!

Até a próxima!

“O que dizem é verdade:
você tem que ver o mundo com seus próprios olhos
para apreciar o quão lindo ele é.”

(Nahida, na linha de voz “Bate-papo - Sentimentos”)


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