(escrito em 28/06/2024)
Era uma vez uma garota comum, cheia de sonhos e dúvidas sobre um mundo que ainda tentava entender. Ela estudava, brincava, assistia a desenhos na TV, imitava quem ela admirava, ajudava a mãe em casa… Ações típicas de uma criança. Ela tinha longos cabelos pretos e olhos castanhos tão escuros, mas tão escuros, que diziam que eram de jabuticaba.
Um belo dia, seus pais apresentaram a essa garotinha o hábito da leitura. A princípio, foi por causa da escola, mas a verdade é que ela sempre foi incentivada a ler. Livros, revistas, jornais, caça-palavras… Ela lia tudo, viajava em tudo que tinha contato sem sair do lugar. Ou até enquanto andava pelos lugares mesmo.
Em suas leituras, ela viu várias coisas, sabe? Ela sentiu a solidão de um gato cinza que perdeu sua própria cauda… quer dizer, foi o rabo que fugiu e, ao ver como era a cidade, entendeu seu próprio sentido, sentiu falta de sua vida e voltou ao seu corpo. Acompanhou um mundo em que alguns seres se juntaram para jogar um anel perigoso num vulcão, percorrendo todo o continente… E o que aconteceu antes disso. Testemunhou sobre a história de órfãos de guerra que foram parar numa terra mágica através de um guarda-roupa – e o que veio antes e depois. Divertiu-se numa região em que as histórias eram contadas dentro de quadrinhos, alguns vieram do Brasil mesmo, outros lá do lado norte do mundo, e ainda teve alguns que vieram do outro lado do planeta (e que se liam ao contrário, vejam só!). Conheceu a experiência de um bruxinho em sua escola, só para se decepcionar anos depois e parar de gostar.
Envolveu-se com a imaginação de um autor brasileiro que tinha a coragem de tratar de temas delicados dentro de uma aura mística, sendo chamado de mago até hoje. Entrou em contato com o universo das poesias e dos poemas de várias formas, até de uma certa Pessoa. Mais tarde, visitou o país das crônicas através de um outro escritor que jura que o que conta é Veríssimo. Depois, vieram os textos acadêmicos, os artigos de opinião, os movimentos sociais e suas vivências, tudo isso arrumando espacinhos entre si.
Em todos esses momentos, as canetas e os cadernos eram outros de seus companheiros nesta jornada. Entre os deveres de casa, havia espaço para pequenas criações. Poemas, poesias, crônicas, artigos acadêmicos… Dentro da produção escolar, depois universitária, e também fora dela. Enfim, sempre que tinha vontade, um pouco das viagens a essas dimensões paralelas à nossa e do que ela sentia ao ver e viver no mundo real se traduziam em palavras justapostas dentro de um raciocínio. Ou não. Mas tudo bem.
Algumas pessoas entendiam, outras nem tanto. Como aquela vez em que ela teve que fazer, para um trabalho de faculdade em grupo, uma encenação de acordo com uma palavra que foi dada pela professora, e… Bem, como representar “orgasmo” com um grupo cuja maioria dos integrantes era evangélica? Simulando situações comuns, mas que dão prazer intenso! Pena que a saída que ela encontrou não deu nem um pouco certo…
Desde sempre, ela também foi estimulada a ouvir músicas, o que a fascinava. Ela não chegou a aprender a tocar nenhum instrumento, mas cantava um pouquinho. Ali, a questão principal era como aquelas notas musicais a afetavam, para onde os teus pensamentos vagavam, e o que ela imaginava com toda aquela mistura de sons, tivesse letra ou não.
Anos, leituras e escritas “depois” (e de diferentes formas), e aquela menininha cresceu. O hábito de ler foi a primeira das viagens que ela faria – e que a mudaram para sempre. A segunda, que funcionou quase que como uma extensão da primeira, foi a escrita. A terceira, uma certa paixão pelo efeito que a música tinha nela. E, por fim, tudo isso junto.
E em pensar que tudo começou com seus pais te apresentando os livros, a música e a escrita… De vez em quando, ela revisita seus escritos de antigamente e vê o quanto mudou. Alguns ela sequer tem coragem de publicar hoje em dia, pois suas crenças mudaram bastante com o tempo. Foram relatos de uma época, afinal.
Ela sempre quis publicar seus textos e ideias, mas tinha medo de que ninguém quisesse ler, de sequer uma pessoa gostar e, por fim, do que ouviria por manifestar seus verdadeiros pensamentos. Um belo dia, com um apoio vindo de uma amiga e uma ameaça vindo de outra, ela resolve, enfim, mostrar sua escrita. Essa jornada, no entanto, talvez seja contada mais tarde, em outros tempos. Ou não.
Afinal, esta é uma história que ainda está sendo vivida. Dia após dia.


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