Diários de um Exílio - dias 09 e 17


A Bailarina de uma plateia só

(escrito em 21 e 29/07/2026)


Era uma vez uma tímida Bailarina. Ela não era profissional, não dançava nem nos palcos de teatros e nem na rua, mas apenas em um só lugar: os olhos de seu amado, o Soldadinho de Chumbo. Ou, pelo menos, era desse jeito que ela gostaria que fosse. Pois ele recusava todos os convites dela para dançar. Dizia que era porque não levava jeito, mas ela não queria uma performance digna de solo em grandes espetáculos. Apenas o suficiente para os dois se esquecerem do mundo e se divertirem juntos.

Só que o Soldadinho de Chumbo nunca ia. Ele tinha qualquer resistência sobre dançar em público (e no privado também). Ficava tão preocupado com que os outros falariam dele que colocou uma trava em si mesmo. Mas não a proibia de ir, isso não! Ele não se importava que ela fosse. Mas não ia. Ele dizia que gostava de vê-la dançar. Mas não via, e nem ia. Ele se largava na cadeira do canto do salão e dizia: "vai lá, eu é que não vou", com cara de quem julgava quem quisesse ir para a pista de dança. E, obviamente, nunca saía de seu posto nem em dias de folga.

Isso era o suficiente para ele nunca se interessar entrar no mundo dela. E isso foi fazendo com que ela, aos poucos, desanimasse com o próprio dançar...

O Soldadinho de Chumbo tinha resistência a tudo que não considerasse como obrigatório na história dos dois. O que, convenhamos, não sobrava muita coisa. No entanto, para ela, nunca foi sobre ser obrigado. Era sobre querer deixar os corpos fluírem na batida da música. Era sobre dividir confissões sem trocar uma palavra sequer. Era sobre não poder mentir ou fingir sobre o que se sente. Era sobre se conectar com o coração antes de fazer isso com o íntimo. E era, sim, sobre não pensar no sentido da vida por um tempo. Somente a Bailarina e seu Soldadinho de Chumbo.

Só que, para a Bailarina, dançar não era apenas sobre mover o corpo de forma ritmada. Ela guardava um segredo profundo (embora mal guardado): um lado escondido que se revelava somente quando se entregava à melodia. Aos poucos, com o passar das melodias, seus movimentos deixam de ser tímidos e contidos (até meio atrapalhados), e dão espaço a movimentos mais amplos… Os braços subindo, passando pelos seus cabelos, os levantando e deixando-os cair, depois descendo, com as mãos passando pelo rosto, pescoço, e assim pelo corpo… Os olhos fechando com frequência e abrindo devagar (e pela metade), com a satisfação de quem gosta do que está fazendo… Os quadris se movem, primeiro devagar, mas cada vez de forma mais ampla, para um lado e para o outro, em círculos, de cima para baixo… Era o sinal de que ela começara a se entregar à música e se transformara em outra mulher… Nesse momento, ela começava a brilhar de forma cada vez mais intensa, e a exalar um cheiro que não se sente com as narinas, mas com o coração: ela ficava cada vez mais cheia de si e transbordante. Era onde a sua sensualidade se sentia mais à vontade para ver a luz do mundo.

Mas por que esse era um segredo? Porque a Bailarina quase não mostrava esse seu lado, e a única pessoa que ela queria de plateia, o Soldadinho de Chumbo, nunca se juntava ao seu espetáculo. Mesmo que não fosse para se apresentar em público. A vontade dela era de um show a dois. Dentro de seu mundo compartilhado. Somente ela e ele. E o desejo crescente que começava com dois passinhos “pra lá e pra cá” na sala e terminava com os dois deitados cansados, como vinham ao mundo, na cama deles.

Quer dizer, terminaria, se ele prestasse mais atenção aos sinais. Certa noite, a Bailarina estava fazendo mais uma de suas apresentações solo e solitárias, achando que não estava sendo vista. No auge de seu solo, completamente distraída, foi abraçada pelas costas de repente. Era o Soldadinho de Chumbo, que se regozijava de desejo pela sublime cena que, sem querer, havia acabado de presenciar. Depois do momento mutuamente prazeroso, ao descansar, ela perguntou a si mesma se ele repetiria o gesto. Mas essa cena nunca mais se repetiu. E ela voltou a dançar sozinha.

Não é como se o Soldadinho de Chumbo não quisesse se entregar ao desejo com a Bailarina. Ele queria, mas do jeito dele. Então pedia apenas por uma aproximação do jeito que ele esperava. Quando pedia por criatividade, era uma dentro de uma caixinha bem definida. Tudo dentro de um molde bem fechadinho. E ela não conseguia pensar numa forma de atender às suas expectativas, já que esta não era a forma natural dela agir. Junto a isso, o soldadinho, muitas vezes, chegava no mundo compartilhado deles sem forças e se trancava em si. Cabia a ela respeitar e se encolher, mesmo estando em erupção.

Com o tempo, o vulcão da Bailarina foi deixando de ser latente. Foi parando, parando… Tentando fazer contas que não fechavam, e sendo cobrada pelo Soldadinho de Chumbo. A frustração crescente fez com que ela acabasse por ser anestesiada aos poucos. Até que suas sapatilhas não pudessem mais ser calçadas. E ela parou de dançar.

O Soldadinho de Chumbo, também frustrado, conheceu uma soldadinha mal esculpida e cheia de uma alaranjada ferrugem. No entanto, isso foi o suficiente para corrompê-lo, a ponto de fazê-lo deixar de se importar com a qualidade de seu entorno. Enfeitiçado por vontade própria, foi se distanciando da Bailarina, provocando o pior nela, para ter o seu escape secreto com a carcomida. E, assim, o fez, contando vantagens. Entrou em corrosão enquanto se juntava com a tal peça de metal barato. E destruía ainda mais o passo e o compasso daquela que foi a sua alma gêmea, que ouvia melodias que, apesar de cada vez mais tristes, ainda eram harmônicas. Porém, aos poucos, ela passou a notar batidas metálicas de fundo, em um ritmo cada vez mais dissonante.

Numa noite tão bela quanto melancólica, os holofotes do palco estavam em seu foco. Mas a Bailarina havia visto o que não queria, e a dor foi dilacerante. No choro visceral e nos passos rancorosos, ela percebe as cordas amarradas em seu corpo… E ela vê a origem: vem do camarote do Teatro, dos soldados corrompidos que comandavam seus movimentos. Em sua última apresentação, numa atitude desesperada, ela vira de costas para a plateia alaranjada, resistindo aos comandos metálicos. Ele tenta obrigá-la a seguir seus comandos, mas ela resiste. Cada um puxa as cordas o mais forte que consegue, com objetivos diferentes, e cada vez com mais força, até que, por fim… “Me sooltaaaaaaaa!”, ela consegue parti-las, junto com a música.

As cordas caíram no chão e o silêncio tomou conta daquele Teatro por um bom tempo. A Bailarina, agora ajoelhada e ofegante, olha para o chão, em prantos por ter perdido tudo. Ela arfa de forma cada vez mais intensa, até soltar o que estava entalado na garganta. Seu grito rasgou aquele Teatro mudo. O Soldadinho de Chumbo, caído de costas no chão e assustado, também ofegante, escuta aquele berro e presencia aquelas lágrimas, não conseguindo conter as suas próprias. E finalmente enxerga as manchas alaranjadas em seu corpo. Ele levanta, ainda pensando no que aconteceu, e corre para a sacada, a tempo de ver sua amada sair correndo do palco.

“Bailariiiinaaaaaaaa!!”, ela escuta enquanto foge. Mas aquela voz a faz parar. Ela o olha num misto de controle e decepção. Sem dizer uma palavra, pergunta-lhe o motivo. Ele sente, e devolve um olhar pesado de culpa que dizia: “Não queria mais você…” Ela entende, abaixa a cabeça, e sai do palco.

A Bailarina chega no camarim, e começa a se trocar para roupas comuns: cabelos soltos, calça, camiseta, tênis, mochilas e malas. Ela lembra de cada momento bom dos anos que passaram juntos, de cada promessa, mas também de cada mentira. As lágrimas agora não eram de desespero, mas de tristeza e decepção. Ela nem conseguia olhar para o arranjo de rosas brancas que recebeu dele sem sequer uma troca de olhares... Quando estava prestes a sair, se deparou com o Soldadinho de Chumbo na porta, chorando. Depois de uma pausa, ela suspira, tentando manter a calma:

⎻ Acho que já dissemos tudo o que tinha para ser dito naquele palco, não é? Com licença…
⎻ Espera! [ele toca nos ombros dela] A gente se machucou muito, mas podemos tentar de novo!
⎻ Como?!? [ela bate em suas mãos, que caem sem força] Depois de tudo… Não dá.
⎻ Uma última vez, Bailarina…
⎻ Olha… [ela suspira de novo, olha para o arranjo de rosas brancas, e pega uma das flores] O nosso mar de rosas está cheio de espinhos, alguns até venenosos, não é? Mas você acabou colocando o pior deles entre nós…
⎻ Eu sei, mas…
Ela o encara, o entregando a rosa:
⎻ Você sabe realmente o que isso significa? A extensão do que você fez? Eu sei de tudo!
⎻ Sim, mas… Passado é passado. Vamos focar no futuro!
⎻ Olha como você está… Igual à soldadinha enferrujada que você se envolveu.
⎻ Eu largo ela, me limpo… Vamos fazer um novo futuro!
⎻ Chumbo, eu… [mais um suspiro] Tenho que ir.

A Bailarina, agora uma pessoa comum, sai do Teatro. Olha para o céu, para o mundo à sua volta… Sente o vento, o calor do sol, a dor das cicatrizes… E segue em frente, sem saber o que esperar, ou o que responder. Ela só sabe que será um dia de cada vez.

Ela sente o vento, e, lembrando-se da música “Le Souvenir Avec le Crepuscule”, começa a arriscar uns passos por conta própria. Não pensando em agradar alguém, mas para si mesma. Ao final de sua pequena performance, completamente absorvida pelo seu próprio ritmo, ela faz uma reverência para um público composto de folhas e animais, e uma voz surge: “Oi, tá fazendo o quê?”. Ela se assusta, interrompe abruptamente a dança, a ponto de quase cair: “Aaaiii!!! Que susto… Quem é você?”. Ele estava à sua frente e ela nem percebeu. “Eu sou o Heitor. E você? [ele olha para o que está ao lado dela] Hum… Tá com umas malas aí né? Tá precisando de ajuda?” A Bailarina pensa por alguns instantes e… Como era o nome dela mesmo? “Ah… Me chamo Beatriz. Hum… Talvez eu precise, mas… Você pode me tirar uma dúvida, por favor?

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