Diários de um Exílio - Dia Zero

A Despedida

(Escrito em 11.08.2026)



"A playlist não está ajudando, não é?”, disse ela no carro.
"Pois é”, disse ele, enquanto dirigia.
Os dois trocaram um riso tão sincero quanto melancólico, enquanto ele a deixava em seu destino.
O silêncio tomou conta de todo o trajeto, interrompido apenas pela música e por sons contidos de choro de ambos.

Aquele fim de tarde nublado era uma atmosfera perfeita para representar um dos últimos capítulos da história deles.
Anos juntos, muitas experiências, alegrias, tristezas…
E uma crise sem precedentes foi apagando o resto de brilho compartilhado por anos.
E mostrando o quanto de si alguém corrompe pelos caminhos que trafega na vida.

Ela estava despedaçada.
No entanto, escondia todo seu sofrimento numa máscara de expressões controladas.
Quem via de fora, presenciava a calma.
Até acreditava que, para ela, foi tudo apenas um motivo que caiu como uma luva.
Ninguém via que a calmaria era só o peso de uma represa operando no máximo de sua capacidade.
O tom contido era, na verdade, decepção, desilusão e um coração cru e despedaçado na mesa de jantar.
E uma promessa interna de que aquela dor que deixou seu corpo em carne viva só seria liberada depois que tudo acabasse.

Oito dias antes, uma conversa jogou na mesa aquilo que estava implícito a meses: que aquele relacionamento estava insustentável.
E ele havia feito algo que o próprio não perdoaria se fosse o contrário.
Mas ele pediu para voltar mesmo assim.

Ela impôs algumas condições.
Pediu para se afastar por algumas semanas.
Quatro.
Ele aparentemente tinha concordado.
No entanto, estranhamente também sugeriu aumentar o prazo.
A dor era dela, mas ele não conseguia entender a extensão do que tinha feito.
O peso, no fim, repousava no mesmo lado da cama. Como sempre acontecia.

Em todo caso, malas e caixas.
Arrumações e despedidas.
E muitas lágrimas.
Ainda que, da parte dela, o choro ainda era um pouco contido.
Ela só pensava em sair para caminhar, ver o mar, e escrever o turbilhão que se passava naquela mente sobre o que estava acontecendo.
“Quatro semanas, não é? Não é melhor levar tudo logo?”
Ela estranhou a fala dele.
“Mas você não precisa levar tudo agora.”
Ele a confunde minutos depois. Como sempre fazia.

Aquela tarde parcialmente nublada escondia muito mais do que melancolia e lágrimas… Porém, nada mais foi dito entre eles até o destino.
Carro estacionado no destino, caixas no quarto, saída apressada...
Mas não antes de uma breve troca de palavras entre ele e o dono daquele que, a partir daquele momento, havia se tornado o novo abrigo dela.
No entanto, aquele espaço era um velho conhecido que ela pensava que não voltaria mais.
Ela estava retornando àquele local, para a tarefa de se recalibrar, de se reconectar e de reerguer sua própria estrutura interna e externa.

Ele retornou para paredes que sempre foram só dele, nunca dos dois.
Afinal, ela nunca tinha deixado de ser uma intrusa, nem uma invasora.
Pois pessoas queridas dele haviam deixado isso bem claro a ela.

E foi assim, nessa confusão de sentimentos e desejos, que o Exílio dela começou.

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